Saúde Mental: não basta falar sobre ela, é preciso compreendê-la

105 0

Pode-se dizer que, nos últimos anos, especialmente com a facilidade de compartilhamento de informações proporcionada pelas redes sociais, a questão da saúde mental deixou de ocupar exclusivamente os espaços acadêmicos e de atendimento e vem sendo muito debatida: depressão, transtornos de ansiedade, esquizofrenia, suicídio e assim por diante. Claro que isso permite grande avanço da área, porém não garante sua devida compreensão, motivo que me levou a eleger o tema para a presente edição.

Mesmo que muito mais pessoas, hoje, consigam reconhecer em si a necessidade de buscar ajuda profissional, seja de um psicólogo ou de um médico psiquiatra, ainda vejo tantas outras que mantêm antigos preconceitos, como “ir ao psiquiatra é pra doido” ou “precisar de psicólogo é sinal de fraqueza”. Tais posicionamentos, não raro, envolvem não apenas os atendimentos de saúde mental, mas os sintomas em si. Imagino que você já deve ter ouvido – ou até pensado – frases como: “isso é falta de Deus no coração”, “se tivesse uma pia de louça pra lavar ou um terreno pra capinar parava com essas bobagens” ou “dizem que é doido, mas rasgar dinheiro não rasga não, né?”. Esse tipo de comentário, ainda tão comum, é justamente o que me leva a afirmar que, por mais que estejamos falando tanto sobre adoecimento psíquico e emocional, ainda falhamos muito na tarefa de legitimá-lo como o que realmente é: uma questão de saúde.

Ora, se é uma questão de saúde, não faz qualquer sentido afirmar que seja uma escolha do indivíduo adoecer, você concorda comigo? Muito menos deveríamos ter a prepotência de mensurar – sem qualquer movimento para se colocar no lugar do outro (a famosa empatia) e, principalmente, sem nenhum conhecimento na área – qual é o grau de sofrimento em que alguém se encontra e quais os caminhos para resolvê-lo, ainda mais com propostas absolutamente simplistas e preconceituosas, como nos exemplos mencionados. Mas o fato é que isso tem acontecido muito! E contribuído para que aqueles em sofrimento emocional se sintam “sem lugar” na atualidade.

É uma grande contradição, não é mesmo? Em uma época na qual se fala de saúde mental como nunca, mais e mais pessoas estão adoecendo e se sentindo absolutamente incompreendidas em sua dor. Faço, portanto, dessa matéria um apelo. É, sim, fundamental falar sobre depressão, ansiedade, esquizofrenia, altas taxas de suicídio entre os jovens. Mas de nada adianta fazê-lo sem antes se despir dos velhos preconceitos. Não há mudança efetiva em conversar sobre esses temas, se já partirmos de julgamentos de valor e, principalmente, se não estamos realmente dispostos a compreender onde estamos errando enquanto sociedade.

Não é fácil. Mas não basta se comover. Sejamos agentes de mudança real, em cada espaço de discussão, em cada interação humana. Não é preciso oferecer soluções prontas – muitas vezes, inclusive, nem é isso que quem está sofrendo deseja – mas já faz muita diferença exercitar a compreensão genuína. Sem julgamentos. Sem preconceitos. Sem banalizações. Se o seu desejo é ajudar, acredite: essa mudança de posicionamento já será um grande começo.

Related Post