Que necessidade é essa de rotular nossas crianças?

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Optei por abordar na presente edição, um fenômeno cada vez mais presente, desde os espaços educacionais e de saúde, até rodas de conversa informais entre pessoas de qualquer área de atuação: a necessidade de rotular as crianças. Se são dispersivas ou agitadas, profetizam que devem haver componentes de déficit de atenção e hiperatividade; se são muito tranquilas, logo imaginam algum tipo de atraso no desenvolvimento; se têm resistência para interagir com os pares, defendem que, por certo, precisam de avaliação especializada para descartar um transtorno do espectro autista… E assim por diante.

De forma alguma faço aqui uma crítica aos diagnósticos em si. Eles são fundamentais para que as crianças recebam atendimento e tratamento adequados – quando é o caso – a se desenvolver da melhor forma possível. O problema está, a meu ver, na banalização desses mesmos diagnósticos e, principalmente, nessa necessidade desenfreada de encaixar, em alguma categoria, toda e qualquer criança que fuja minimamente do padrão esperado.

É compreensível que, muitas vezes, nos sintamos tão desafiados frente a uma criança que age diferente que diagnosticá-la realmente parece a promessa de um “manual de instruções” sobre como proceder. O risco, entretanto, de fazê-lo apressadamente, é perder de vista uma infinidade de possibilidades que poderiam ser acessadas se conseguíssemos nos abrir à compreensão, sem pré-julgamentos, de sua maneira de ser.

Tal posicionamento deixa de levar em consideração, por exemplo, os elementos de contexto. Digamos que uma criança responde sempre agressivamente aos colegas e professores, desrespeitando figuras de autoridade. Isto não será perfeitamente compreensível se em casa ela estiver constantemente exposta a uma forma violenta de resolução de conflitos? Ou, se pensarmos nas crianças agitadas com quem temos nos deparado tão frequentemente – não pode ser esta, talvez, uma forma de responder ao ritmo de vida igualmente acelerado, com pais que trabalham muito e uma rotina cheia de atividades extracurriculares?

Poderíamos seguir citando inúmeros exemplos, mas eles de nada adiantariam sem a compreensão de um elemento fundamental: sua singularidade. Isto significa que nem toda criança agressiva vivencia violência em casa e nem toda criança agitada o é em função de sua rotina acelerada, como imaginamos acima. Da mesma forma, não deveriam jamais ser imediatamente rotuladas como portadoras de um Transtorno Desafiador de Oposição ou um Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Faz-se urgente começar a olhar para cada situação com mais cautela, levando em consideração a complexidade do comportamento humano.

Isto posto, concluo com um convite: não só para que você, caso tenha andado rotulando crianças por aí, repense seu posicionamento; mas também – e principalmente – para que realize essa ponderação com outras pessoas, sempre que puder. As crianças que tiverem a chance de serem elas mesmas e descobrir o seu potencial antes que alguém lhe corte as asas, com certeza, agradecerão!

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