Quanto tempo estamos perdendo no “modo automático”?

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

“Puxa, não parece que foi ontem? E já passou um ano!”. Imagino que você, assim como eu, tenha ouvido bastante essa frase nos últimos tempos. Talvez, inclusive, também tenha experimentado esse sentimento com frequência e se questionado se, afinal, o tempo está ou não passando mais depressa – como tantos de nós também têm se questionado. Minha proposta, para a presente edição, é que possamos conversar um pouco sobre isso, especialmente levando em conta aspectos relacionados que, possivelmente, têm passado despercebidos.

Um exercício bastante simples, que considero importante quando somos invadidos pela sensação de que “nem vimos a semana passar”, por exemplo, é refletir sobre como ocupamos o nosso tempo ao longo do período em questão. Não raro, as respostas consistem geralmente em muitas horas de trabalho e/ou estudos, além das obrigações cotidianas e de alguns momentos diante da TV, computador ou celular. Isso, quando as tarefas mencionadas não acontecem concomitantemente.

É a partir de uma reflexão como essa que nos damos conta do quanto, na verdade, possivelmente poderíamos ter organizado nossos afazeres de forma mais racional, ou mesmo priorizado algumas coisas em detrimento de outras. Mas, no que chamo aqui de “modo automático”, isso não costuma acontecer com frequência: apenas cumprimos uma lista interminável de pendências, dia após dia, até que mais uma semana acabe e só assim a nossa atenção se volte para o fato de que o tempo está passando enquanto estamos tão ocupados.

Por este motivo, o questionamento que trago hoje é esse: o quanto estamos perdendo, sob a falsa sensação de que nunca ganhamos tanto? Sim, é verdade que ter acesso a informações praticamente em tempo real faz com que possamos, automaticamente, saber muito mais em períodos cada vez menores. Nunca estivemos tão antenados com o que acontece com o mundo – mas e com o que acontece dentro de nós? Também é verdade que resolver problemas e pendências sem precisar sair do nosso sofá é extremamente cômodo – mas será que isso nos dá a dimensão real da seriedade de algumas situações? E, por fim, sem dúvida é maravilhoso que possamos manter contato com amigos e familiares que estão em qualquer lugar – mas e quanto aos abraços que estamos deixando de dar em quem mora a poucos quarteirões de distância?

Acredito, ainda, na possibilidade de que tais questionamentos passem tão despercebidos não somente por não estarmos atentos a eles, mas também pela falsa sensação de que ainda temos tempo demais para viver tudo o que está ficando de lado. “No final de semana eu passo pra ver a minha mãe”, “qualquer hora eu resolvo aquela pendência no banco” ou “quando chegarem as minhas férias eu leio aquele livro que quero tanto”, não é mesmo? Deixamos pra depois sem perceber que estamos fazendo uma aposta sem qualquer garantia: a de que o depois, necessariamente, chegará.

Talvez o parágrafo anterior tenha incomodado você. Na verdade, espero que tenha. Não um incômodo que o faça abandonar a leitura, embora eu saiba que é isso que muitos de nós acabam fazendo, para evitar entrar em contato com a inegável finitude que compõe a nossa existência. Mas aquele incômodo que inspira mudanças, sabe? Que faz com que a gente se movimente, por entrar em contato com a urgência de fazê-lo.

É claro que sair do modo automático não é algo simples. As exigências, de todos os lados, são muitas e, não raro, precisamos voltar a ele para dar conta de cumpri-las. Mas cabe igualmente a nós tanto a compreensão do que nos é essencial, quanto a escolha de não deixar que esse mesmo essencial se perca de vista. Que possamos, então, cuidar disso e, de agora em diante, não mais ficar surpresos ao constatar que um ano se passou e, sim, satisfeitos por tudo de significativo que pudemos viver nesse período!

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