Quantidade X Qualidade de tempo com os filhos

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Existem temas que, apesar de já serem constantemente discutidos, precisam ser elucidados de tempos em tempos, dada a sua relevância. Considero que este se trata de um deles – até porque, por mais que saibamos como é importante dedicar tempo aos filhos, parece que isso tem se tornado um desafio cada vez maior na atualidade.

É muito provável que você já tenha participado, seja como protagonista ou interlocutor, de diálogos ligados à dificuldade de administração do relógio: “o ano está passando muito rápido!”, “parece que a semana começou ontem e já acabou!”, “não consegui fazer quase nada do que tinha planejado!”, “será um desafio conciliar nossas agendas!” são frases que temos pronunciado (ou, ao menos, ouvido) com uma frequência assustadoramente crescente, não é mesmo?

Não tenho dúvidas de que nossa dinâmica de vida, hoje, realmente envolve uma diversidade e uma quantidade muito maior de afazeres do que há dez, vinte anos. As necessidades – e talvez também as prioridades – mudaram e temos que nos desdobrar para atendê-las. A consequência, como já mencionamos no início da presente matéria, é cada vez menos tempo disponível para alguns setores da nossa vida. Isso, não raro, envolve a família e os filhos, pois, de forma refletida ou não, é comum partirmos do pressuposto de que eles sempre poderão compreender nossas ausências.

Tal premissa, porém, esquece de levar em consideração um ponto muito importante, especialmente quando os filhos são crianças ou adolescentes: o tempo com eles não volta. Não poderemos jamais recuperar as primeiras palavras pronunciadas, as primeiras descobertas, o primeiro coração partido, as primeiras decepções e frustrações. Se não estivermos lá, essas situações simplesmente acontecerão sem que façamos parte ou sequer tomemos conhecimento.

Ao trazer essa problematização, não significa que eu esteja dizendo que você, pai ou mãe, deva abandonar todos os demais âmbitos da sua vida e se dedicar exclusivamente aos seus filhos. Dificilmente isso seria possível – e sequer seria saudável. Entendo, porém, que é urgente fazer uma reflexão acerca da qualidade do tempo que tem sido dedicado, pelos pais, às crianças e adolescentes, atualmente. Trago uma cena para justificar essa afirmativa: final do dia, família reunida na sala para “passar um tempo juntos” – o pai, no celular, lendo notícias; a mãe, no celular, resolvendo pendências do trabalho que deixou pra trás; a filha adolescente, no celular, alternando entre um jogo qualquer e os posts nas redes sociais; o filho, de seis anos, vidrado no tablet; e a TV ligada, embora ninguém esteja olhando pra ela. Parece algo muito difícil de acontecer?

Essa foi a razão pela qual, no título, contrapus os termos quantidade e qualidade do tempo com os filhos. Independente de ser possível ou não aumentar o número de horas passadas com eles, é preciso cuidar da forma como se dão esses momentos. De nada adianta a presença física se, nas entrelinhas, a mensagem é de ausência de disponibilidade para a interação. No meu cotidiano de trabalho, fica mais do que evidente o quanto nossos pequenos e jovens têm sentido falta de espaços de expressão e compreensão genuínos. Muitos deles têm pais presentes que acompanham suas vidas escolares e fiscalizam suas conversas no WhatsApp, por exemplo, mas não fazem ideia de seus conflitos mais profundos porque estão ocupados demais para prestar atenção.

Você consegue perceber que não se trata, necessariamente, de fazer mais do que já está sendo feito? Significa fazer diferente. É preciso desenhar, pintar, jogar juntos. É importante conversar sobre assuntos que interessem a eles, não só a você. É indispensável estar atento. É necessário ouvir, sem julgar, antes de falar – e, quando falar, abrir mão das frases prontas e das orientações enrijecidas. É fundamental, por fim, estar inteiro. Isso significa, muito resumidamente, dedicar 100% da sua atenção ao seu momento com eles. Nesse formato, acredite: quinze minutos poderão valer muito mais do que três horas.

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