Empatia: precisamos resgatá-la com urgência

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

A escolha do tema a ser abordado em cada edição parte, fundamentalmente, das situações que chamam minha atenção, seja em nossa sociedade como um todo, seja nas minhas vivências mais próximas enquanto profissional de Psicologia. Quem acompanha minhas matérias com frequência, possivelmente já me viu falando sobre isso mais de uma vez. Gostaria de resgatar essa informação, porém, para ressaltar que falar sobre empatia, atualmente, me parece não só urgente, como extremamente necessário.

Apesar de se tratar de um termo amplamente utilizado, penso que seja importante começarmos pela sua definição. De acordo com o Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa Michaelis, empatia significa “habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa” ou “compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem”. Ora, consiste em uma conduta básica para a maior parte das interações que estabelecemos, não é?

O que me parece que tem acontecido em grande escala ultimamente, porém, é a confusão, bastante comum, entre empatia e simpatia. De acordo com o mesmo dicionário, simpatia é a “afinidade entre duas ou mais pessoas pela semelhança e proximidade de sentimentos e pensamentos”. Se nos restringirmos a essa concepção, portanto, só será possível se relacionar bem com aqueles que pensam e agem de forma parecida. E aí temos um grande nó, percebe?

Quanto mais as pessoas se prendem a essa conduta – de só compreender e aceitar aqueles com quem simpatizam, bem como as situações que lhes são familiares – menos empáticas se tornam e, não raro, sequer se dão conta disso. São comuns argumentos como: “eu me coloco no lugar dela, mas sinceramente? Não é para tanto!” ou “eu, no lugar do Fulano, jamais teria tomado essa atitude. É um absurdo!”.

Avalio que isso acontece porque existe um equívoco básico no exercício da empatia. Para realmente se colocar no lugar do outro, não basta pensar em como nós reagiríamos em seu lugar. É preciso ir além: deixar de lado os nossos referenciais e a nossa forma de sentir, para verdadeiramente tentar compreender a partir do que aquela pessoa viveu e da forma como ela experimenta o que lhe acontece. É necessário sair de si. Só assim é possível compreender o outro verdadeiramente: ao ocuparmos o lugar que ele ocupa, não o que nós ocupamos.

Note que ser empático, portanto, não tem relação com concordar ou discordar de alguém. Significa, simplesmente, a condição de compreender os motivos pelos quais a outra pessoa é como é, independente de nossa opinião. O que a empatia tende a despertar, na verdade, é o respeito. Podemos discordar totalmente da forma de ser do outro, mas adquirimos a profunda condição de respeitá-lo, sem querer moldá-lo aos nossos valores e crenças. Você já identificou, como eu, o motivo pelo qual precisamos tanto conversar sobre empatia ultimamente?

Vivemos na era dos ataques, das discussões acaloradas. Na era das verdades absolutas. Potencializado pelas redes sociais, o comportamento de criticar o outro instantaneamente, sem se colocar em seu lugar sequer por um segundo, tem se tornado cada vez mais frequente. É chocante testemunhar a violência com que, não raro, esses posicionamentos se materializam e é extremamente preocupante constatar o seu efeito: pessoas cada vez mais cheias de si e que acreditam na própria verdade como única forma de compreensão possível do mundo.

Precisamos, urgentemente, repensar esses moldes – e acredito que cada um de nós pode ser um importante agente de mudança, se começarmos pelo pequeno universo que nos cerca. Observe-se. Questione se não está fazendo um julgamento exclusivamente a partir do seu próprio referencial. Compreenda de onde o outro fala. Abra-se para o que ele pode ensinar a você com sua forma de ser. Se não for suficiente para despertar empatia naqueles que tanto atacam, acredite: será extremamente transformador a você mesmo, isso de experimentar enxergar o mundo com os olhos de outro alguém!

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