Frustração: por que tão necessária?

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Tem sido cada vez mais comum, em rodas de conversa sobre o comportamento de crianças e adolescentes na atualidade, comentários que destacam o quanto eles tendem a não tolerar a menor contrariedade. Pejorativamente, nesse sentido, tem sido utilizada a expressão “geração do mimimi”. Minha proposta, com o presente texto, é lançar luz sobre esta questão, buscando compreender algumas das construções que têm levado a este cenário e o quanto ele talvez fale mais das gerações anteriores do que propriamente desta.

Para isso, faz-se importante começar refletindo sobre como se dá a compreensão dos limites aos nossos desejos. Ora, não se trata de algo que uma criança nasce sabendo, não é verdade? Regras, por exemplo, são construções sociais e, portanto, precisam ser ensinadas. E é justamente nessa relação entre desejos e regras – ou limites – que se situa o sentimento que dá título à presente matéria: a frustração.

Quando falamos nela, entretanto, observo que é muito comum que as pessoas façam uma associação extremamente negativa. Como se o ato de se frustrar fosse algo tão ruim que precisa ser evitado a qualquer custo. Tal concepção, ainda que de forma velada, parece estar constantemente como pano de fundo da relação que muitos pais têm estabelecido com seus filhos e a consequência disso é que acabam se desdobrando – às vezes muito além do que realmente poderiam – para atender às necessidades das crianças integralmente, deixando pouco ou nenhum espaço para que se frustrem e, consequentemente, aprendam a lidar com isso.

Veja, não se trata de uma crítica superficial aos pais, muito menos de responsabilizá-los integralmente pelas dificuldades de seus filhos. Entendo que eles também se veem às voltas com cobranças absurdas sobre o comportamento ideal do papel que ocupam e, não raro, deparam-se com limites que acabam tentando compensar através de uma pitada de permissividade. Porém, ao se sentir culpado(a) por ter trabalhado o dia todo, só tendo o momento do jantar com as crianças e, por esta razão, ceder quando elas se recusam a comer e deixar que pulem diretamente para a sobremesa, por exemplo, contribui para esse cenário que estamos tentando compreender. Dizer ao seu filho(a) que é a escola que exige muito dele(a) quando tira más notas ou que são os colegas que estão necessariamente errados quando ele(a) enfrenta algum conflito, também.

Em outras palavras, crianças e adolescentes precisam de ajuda para lidar com a frustração inevitável e não de adultos que lhes transmitam a mensagem de que são especiais e estão sendo injustiçados quando se deparam com ela. De nada adianta, também, recorrer ao outro extremo, da violência – travestida pelas queixas de que “se fossem permitidas as famosas palmadas do passado as coisas não estariam assim” –, pois ela também oferece um modelo não só danoso, como ineficaz, para lidar com situações que não estão de acordo com o que achamos que deveriam estar.

Ora – pode ser que você esteja se perguntando – mas o que nos resta, então!? Como sempre gosto de lembrar, não existe receita para lidar com a vida e suas questões. Mas existem, sim, ponderações que podemos fazer a partir do que levantamos até aqui. Antes de qualquer coisa, é preciso compreender que a frustração, embora seja, de fato, um sentimento ruim quando experimentado, é o que nos ensina que o mundo não gira ao nosso redor. Que não é possível fazer apenas o que nos dá prazer. Que as pessoas são diferentes e sua necessidade nem sempre coincidirá com a nossa, o que não nos dá o direito de desrespeitá-las. Crianças e adolescentes que compreendem essa lógica tendem a administrar melhor situações que os desagradam – e, mais do que isso: a encontrar soluções criativas para limites que sabem que não podem romper.

E, como último ponto, embora essa reflexão esteja muito longe de se esgotar, é preciso permitir que aprendam a lidar com a tristeza. A ideia da felicidade plena, 24 horas por dia, 7 dias por semana, é ilusória e extremamente nociva, pois cria uma dificuldade imensa para lidar cotidianamente com uma vida imperfeita – porém real. Entende como talvez seja mais fácil do que parece ajudar essa geração que está chegando? É preciso abandonar o ideal e aprender a lidar com o possível. Conjuntamente.

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